Pensar a vida e a morte como plataforma, e não como destino, exige sair da caixa mais blindada que temos — feita de instintos, medos e daquilo que chamamos de realidade. A tese é simples de enunciar e difícil de habitar. A primeira mordida nos deu o discernimento e, com ele, a morte. A segunda, que já se anuncia, retira a morte da equação. A inteligência artificial é apenas a serpente desta rodada. O que importa é o Eros que um corpo precisará inventar quando deixar de ser mortal.
Segunda mordida lê o mito como material arqueológico e o Gênesis como relato de uma travessia: descobrir que, do outro lado, as regras são outras.
Talvez não conheçamos o mar que Segunda mordida aponta no horizonte. Ainda assim, é preciso saber morrer. E, mais difícil ainda, aprender a viver além da vida que imaginávamos.
– Marcello Dantas, diretor artístico e curador de arte brasileiro. Pequim, agosto de 2026