No centro da trama de Quarenta chibatadas menos uma
estão o índio Raymond San Carlos e
o negro Harold Jackson, ambos condenados por assassinato
-e as únicas exceções entre as dezenas
de detentos brancos a viver na sombria penitenciária
de Yuma. Esse contraste racial faz com que os dois sejam
vistos com maus olhos tanto pela administração
do lugar quanto por seus companheiros de cela. O carcereiro
Bob Fisher tem a constante necessidade de inventar motivos
para atirá-los na solitária; o calculista
Frank Shelby, presidiário com inúmeras regalias,
nunca se cansa de planejar conflitos que venham a pôr
um contra o outro.
Mas
a superação dos problemas de Raymond e Harold
pode estar nas palavras sagradas de São Paulo: "Cinco
vezes recebi dos judeus quarenta chibatadas menos uma. Três
vezes fui açoitado com varas, uma vez fui apedrejado,
três vezes sofri naufrágio, uma noite e um
dia fiquei à deriva em alto-mar. Tenho viajado constantemente
e já estive em perigo em rios, em perigo por causa
de bandidos, em perigo por causa dos da minha nação...
Tenho trabalhado e labutado e já estive muitas vezes
sem dormir, tenho passado fome e sede e muitas vezes já
estive sem comer; já passei frio e nudez" (2
Coríntios. 11:24-27).
É
a partir da leitura desse trecho da Bíblia que Everett
Manly, pregador religioso e supervisor interino de Yuma,
quer que o índio e o negro notem que há dificuldades
maiores do que as enfrentadas por eles e entendam que a
força interior aumenta após momentos de fraqueza.
Manly, porém, logo se dá conta de que simples
frases não têm efeito algum nos ouvidos dispersos
e nas mentes pagãs dos presos. O passo seguinte:
imaginar uma maneira para que os dois consigam pôr
em prática tais conceitos bíblicos. E a resposta
é: uma corrida.
Na
visão de Manly, uma saudável competição
entre Raymond e Harold vai fazê-los perceber que podem
se destacar em algo e deixar de ser apenas pobres coitados
abandonados por Deus. Ao mesmo tempo, tenta convencer Raymond
- um pele-vermelha que sempre se envergonhou de suas raízes
- a ser um verdadeiro apache. O americano Harold, por sua
vez, é induzido a aceitar que é um legítimo
zulu africano. De rostos pintados e com lanças nas
mãos, os dois se tornam os protegidos do supervisor
que, alheio ao detalhado plano de fuga que está sendo
arquitetado dentro dos muros de Yuma, quer provar a sua
teoria de que a fé e o diálogo são
capazes de substituir a violência no tratamento dos
detentos.
Apesar
de poder ser classificado como western, Quarenta
chibatadas menos uma é uma obra de transição
na carreira do escritor Elmore Leonard para o gênero
policial - depois disso ele lançaria apenas Na
mira da arma e só voltaria ao faroeste vinte
anos depois, com o romance Cuba Libre. Ambientado
em 1909, quando os caubóis já não eram
figuras tão comuns em solo americano quanto haviam
sido nas décadas anteriores, o livro tem no presídio
de Yuma um cenário atemporal. Além disso,
há uma abordagem irônica associada a uma narrativa
repleta de reviravoltas e variações de perspectiva,
características que se tornariam típicas das
obras de temática criminal escritas por Leonard.
O
romance teve seus direitos de filmagem comprados pelo estúdio
de cinema Miramax e vem sendo cotado para ser um dos próximos
projetos do diretor Quentin Tarantino, o cultuado diretor
dos sucessos Pulp Fiction, Kill Bill e Jackie
Brown - esse último baseado em outro livro de
Elmore Leonard, Ponche de rum.