O CEGO JOZEF PRONEK
&
AS ALMAS DO ALÉM
E, finalmente, depois de ir furtivamente da cômoda para o armário,
ele encontrou peça por peça tudo de que precisava e terminou
de se vestir entre os móveis que o toleraram em silêncio
e, finalmente pronto, ficou parado de chapéu na mão, sentindo-se
um tanto constrangido de que, mesmo no último minuto, ele não
conseguisse encontrar uma palavra capaz de dissipar aquele silêncio
hostil; então, encaminhou-se lentamente para a porta, resignado,
a cabeça caída, enquanto outra pessoa, alguém que
sempre lhe voltava as costas, caminhava no mesmo passo em direção
oposta rumo às profundezas do espelho, atravessando uma série
de aposentos vazios que não existiam.
- Bruno
Schulz,
O sr. Charles
O cachecol vermelho
Assim que Pronek pisou
fora do avião (um comissário amarrotado e já conhecido
lhe deu um "Auf wiedersehen" sorridente), ele percebeu que deixara
na cabine o seu cachecol de lã vermelha, com uma mancha cor de
mostarda feita no café do aeroporto de Viena. Pensou em voltar
para buscá-lo, mas o movimento contínuo do pistão
formado por seus companheiros de peregrinação o empurraram
pelo túnel labiríntico, até surgir uma fileira de
guichês que replicavam uns aos outros, e nos quais funcionários
uniformizados liam passaportes, enquanto vários passageiros aguardavam
obedientes atrás de uma grossa linha amarela no chão. Havia
um homem erguendo um letreiro com o nome de Pronek grafado errado (Proniek),
e que controlava o grosso fluxo de pessoas que saía pela passagem
tortuosa demarcada por fitas pretas, como se escolhesse alguém
em quem pespegar o nome que segurava. Pronek dirigiu-se a ele e falou:
- Pronek sou eu.
- Ah, é o senhor - disse o homem. - Bem-vindo aos Estados Unidos.
- Obrigado - respondeu Pronek. - Muito obrigado.
O homem o conduziu pela aglomeração de pessoas que seguravam
passaportes e empurravam as inchadas bagagens de mão com os pés.
- Não precisamos esperar - disse o homem a Pronek com um aceno
de cabeça como se, por alguma razão, quisesse lhe transmitir
uma mensagem secreta. - O senhor é nosso convidado.
- Obrigado! - exclamou Pronek.
O homem o levou a um guichê tomado até as vidraças
por um gigante. Se, de repente, alguém tivesse aberto a porta do
guichê, suas carnes teriam escorrido lentamente para fora, pensou
Pronek, como massa muito mole.
- Oi, Wyatt! - cumprimentou o guia de Pronek.
- Oi, Virgil - retribuiu o homem de massa.
- Ele é nosso convidado! - informou Virgil.
- Como vai a vida, companheiro? - perguntou o homem de massa. Tinha bigodes
e, subitamente,
Pronek percebeu que ele parecia o gordo detetive de gravata frouxa e camisa
desabotoada de um seriado da TV norte-americana.
- Muito bem, obrigado, obrigado por perguntar - respondeu Pronek.
- Que é que você vem fazer aqui, companheiro?
- Ainda não sei, não senhor. Viajar. Acho que têm
um programa para mim.
- Com certeza que têm - disse ele, folheando o passaporte iugoslavo
vermelho de Pronek, como se fosse uma revistinha pegajosa e obscena. Em
seguida agarrou um carimbo, bateu-o com violência em cima de uma
página do passaporte e disse:
- Divirta-se para valer, está me ouvindo, companheiro?
- Farei isso, sim, senhor. Muito obrigado.
A cena que acabamos de ver é Jozef Pronek entrando nos Estados
Unidos da América. Foi em 26 de janeiro de 1992. Uma vez do lado
de cá, ele não sentiu diferença alguma. Mas sabia
muito bem que não poderia voltar para apanhar seu lenço
vermelho com o carimbo cor de mostarda.
Virgil começou a explicar a Pronek como pegar o avião para
Washington, capital, mas Pronek não estava realmente escutando,
porque a espetacular cabeça de Virgil de repente se tornara visível.
Ele viu um vale de calvície entre dois tufos de cabelos afastando-se
horrorizados da calota emergente. A pele do rosto de Virgil estava inscrita
em uma intrincada rede de vasos sanguíneos, como sistemas fluviais
em um mapa, com dois deltas carmins em torno das narinas. Os pêlos
espiavam para fora do nariz, balançando quase imperceptivelmente,
como se houvesse duas centopéias em suas narinas, movendo as perninhas
impotentes. Pronek não sabia o que Virgil estava dizendo, mas repetia
"Sei. Sei". Então Virgil apertou generosamente a mão
de Pronek e falou:
-- Estamos muito contentes em tê-lo conosco.
Que poderia Pronek responder? Respondeu.
- Muito obrigado.
Trocou, então, dinheiro com uma adolescente apática e espinhenta,
atrás de uma grossa vidraça, e obedientemente se sentou
ao bar que o convidava com um fulgurante anúncio de néon:
"Venha tomar um drinque conosco." Lia as notas de dólar
("Em Deus confiamos") quando a garçonete falou:
- São bem verdinhas, não acha? Que podemos lhe servir, amor?
- Cerveja - disse Pronek.
- Que tipo de cerveja? Não estamos na Rússia, hum, temos
todo tipo de cerveja. Temos Michelob, Miller, Miller Lite, Miller Genuine
Draft, Bud, Bud Light, Bud Ice. A que você quiser.
Ela lhe trouxe uma Bud (Light) e perguntou:
- Qual é o seu time no Super Bowl?
- Não sei.
- Sou de Buffalo. Vou morrer se os Bills tiverem outra derrota.
- Faço votos que não tenham.
- É melhor não. Ou vou ficar realmente furiosa.
Todos os aparelhos de TV no bar estavam ligados, mas as imagens eram distorcidas.
As cabeças quadradas de dois homens de meia peruca que conversavam
subiam repolhudas como baforadas de fumaça, depois endireitavam,
e Pronek os via sorrir para seus microfones, como se fossem deliciosos
pirulitos, em seguida os homens voltavam a se distorcer. Ele pensou por
um instante que seus olhos não estavam acostumados à maneira
com que as imagens eram transmitidas nesse país. Lembrou-se de
que os cães viam diferentemente das pessoas e de que tudo era meio
indistinto para eles. Isto para não falar dos morcegos, que não
enxergavam coisa alguma, mas voavam para todo lado, batendo nos postes
telefônicos, com algo parecido com um sonar na cabeça, o
que significava que só entendiam ecos.
Este era o tipo de pensamento inútil que freqüentemente ocorria
a Pronek.
Ele viu um casal idoso sentado sob uma das TVs. O homem tinha rugas que
saíam, como raios, dos cantos dos olhos e um boné dos Redskins.
A mulher tinha os cabelos volumosos e lembrava muito o Washington na nota
de um dólar. Um aviso às costas dos dois dizia "Reservado
aos Fumantes". Eles se sentavam em silêncio; seus olhares,
perpendiculares entre si, convergiam para o cinzeiro de lata no centro
da mesa. A garçonete ("Eu sou Grace - disse ela. Como vão
as coisas") trouxe para os dois Miller Lites, mas eles nem as tocaram.
Em vez disso, o homem tirou um livro preto de dentro de uma bolsa de lona
gasta e abriu-o entre as duas garrafas suadas. Então leram juntos,
as cabeças quase se tocando, a mão esquerda do homem sobre
a mão direita da mulher, como um sapo em cima do outro fazendo
amor. Depois começaram a chorar, apertando-se as mãos com
tanta força que Pronek pôde ver as pontas dos dedos da mulher
se avermelharem, ao mesmo tempo que suas unhas pintadas de rosa pareciam
se alongar.
Este foi, para Pronek, o primeiro de uma série do que normalmente
chamamos de choques culturais.
Perambulou a seguir por todo o aeroporto, imaginando que o lugar tinha
a forma do corpo inerte de John Kennedy, com as pernas e os braços
estendidos, e aviões como se fossem sanguessugas a lhe chuparem
os dedos dos pés e das mãos. Ele imaginou que viajava pelo
aparelho digestivo de Kennedy, nadando em um rio borbulhante de ácido,
como as bactérias, indo terminar no gargarejante rim-banheiro.
Saiu do aeroporto por uma das narinas de JFK, diante da qual havia táxis
alinhados como um fino bigode.
Por fim, ele se reuniu à fila de pessoas que entrava lentamente
no túnel para embarcar no avião de Washington.
- Como está hoje? - disse a comissária, sem se dar o trabalho
de ouvir a resposta. Pronek ganhou um lugar à janela, e um homem
que acabava de ser ligado a um compressor de ar, como um balão,
sentou-se ao seu lado - o homem era tão gordo que ocupou dois lugares
e teve de passar o cinto pela coxa esquerda.
- Nem posso acreditar que estou perdendo o Super Bowl - disse o homem
e suspirou. - Assisti a todos os jogos dos malditos Redskins este ano
e vou perder logo o mais importante. A porra do mais importante. Você
é fã dos Redskins?
- Acho que sequer conheço as regras do jogo.
- Ah, você é estrangeiro! - exclamou ele triunfante e tornou
a suspirar. - Que acha dos Estados Unidos? Não é o maior
país do mundo?
- Acho que ainda não sei. Acabei de chegar.
- É o máximo. As pessoas são o máximo. Liberdade,
e tudo o mais. O melhor do mundo. - Ele concluiu a conversa com um trejeito
de quem entende e abriu um livro intitulado As sete leis espirituais do
crescimento. Pronek observou a rigidez da asa de alumínio do avião,
o corpo torto do homem, a bochecha contra a textura da poltrona, cuja
aspereza lhe lembrou o cachecol vermelho, depois ele cochilou até
que a subida dos seus intestinos para a garganta, durante a decolagem
do avião, o acordou.
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