CARMEN MORENO
Autora do O primeiro crime
 

Denise Assis, organizadora da coleção, considerou o seu romance bastante denso pelo perfil psicológico dos personagens. Como se estrutura a trama?

CARMEN MORENO: Uma mulher recebe o telefonema do caseiro de seu sítio, e descobre que um
cômodo da casa desabou e uma ossada humana foi encontrada sob os escombros. Um inquérito é aberto. Os desdobramentos da trama trazem à tona vários suspeitos, e novos delitos são revelados. A narrativa, em flashback, costura fatos anteriores e posteriores à descoberta dos ossos, mesclando cenas absolutamente ágeis, dinâmicas, e outras introspectivas, marcadas pela atmosfera densa e psicológica. Busquei prolongar ao máximo o suspense,
tentando ocultar até o fim as identidades do assassino e do morto.


O livro é narrado em flashback e as pessoas vão descobrindo paulatinamente que mistérios são escondidos por trás da ossada encontrada no sítio, pelo caseiro. De alguma maneira, há influência do cinema na maneira como você estruturou o texto?

CARMEN: A influência do cinema sempre se reflete no que escrevo. As pessoas costumam dizer que meus textos são ricos em imagens e movimento. Muitas vezes interrompo a escrita para assistir internamente a algumas cenas, visualizá-las, antes, como espectadora. Elas precisam me envolver, me convencer. Depois, a escritora retoma o comando e traduz o que assistiu. Costumo, também, ler o texto em voz alta, para sentir se os diálogos são orgânicos, essenciais para perceber o ritmo. Preciso ouvir o personagem para sentir se ele existe mesmo.

 

O perfil psicológico de cada um dos personagens é importantíssimo em seu livro. Desequilíbrios desta ordem estão na base dos crimes?

CARMEN:
Ao menos dos crimes mais interessantes enquanto ficção. Gosto de personagens
conflituosos, ambíguos... personalidades complexas que, algumas vezes, estão próximas da loucura.


Como o livro se relaciona com seus outros títulos como ficcionista?

CARMEN: Diário de luas, meu primeiro romance publicado pela Rocco, conta a história de uma atriz anônima, obcecada pela fama, que acaba cometendo um crime. Não o considero um romance policial. A tônica não é a ação nem o suspense, mas o perfil de uma mulher que, movida por uma obsessão, torna-se uma criminosa. Este elo com o crime não acontece com o Sutilezas do grito, livro de contos. No entanto, a marca de todas as minhas criações é a narrativa psicológica, a deflagração das contradições, dos sentimentos humanos, e a maneira gradativa como esses personagens vão sendo apresentados ao leitor. Gosto de administrar o suspense, omitindo e revelando dados, mesmo quando o livro não pertence ao gênero.


Como autora, quais são suas influências quando o assunto é literatura policial?

CARMEN: Adoro Rubem Fonseca e Edgar Allan Poe. Os filmes de Brian de Palma, Alfred
Hitchcock e todas as boas histórias de crime, mistério e suspense que assisti também foram de grande importância na criação de O primeiro crime. Sem falar na influência que a vida exerce sobre mim, à medida que observo demais as pessoas, a mim mesma, o ritmo dos fatos e o tempo necessário para que os mistérios nos sejam revelados.


Fora o de suspense, que outros gêneros e autores nacionais fazem parte de sua mesa-de-cabeceira?

CARMEN: Machado de Assis, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Rubem Fonseca, Lima Barreto, Caio Fernando Abreu, e os poetas Augusto dos Anjos, João Cabral de Melo Neto, Tanussi Cardoso, Adélia Prado, Mário Quintana são alguns dos escritores de que mais gosto.


Na sua opinião, há alguma característica específica desta literatura por aqui? Existiria um noir verde-amarelo?

CARMEN:
Acho que alguns escritores talvez estejam imprimindo ao gênero os nossos traços, a nossa cara.


Que ingredientes precisa haver num bom livro policial para ele "prender" a atenção do leitor?

CARMEN: Uma história instigante, cheia de surpresas, com uma boa estrutura narrativa. Diálogos que revelem e, ao mesmo tempo, ocultem a humanidade dos personagens e suas intenções. Um ritmo dinâmico de ação. Sobretudo, o escritor precisa saber decidir o que informar, o que ocultar e quando. Deve oferecer, gradativamente, ao leitor, os dados para a montagem do quebra-cabeça da trama, reservando para o momento final uma grande revelação.


Você acha que a literatura policial, muitas vezes associada ao entretenimento, pode ajudar a formar novos leitores?

CARMEN: Sim. Qualquer gênero literário pode incentivar a formação de novos leitores. Sobretudo o policial, que utiliza ingredientes de grande poder de sedução. Uma leitura prazerosa, que proporcione entretenimento, é um marketing vigoroso, que pode despertar no leitor iniciante o desejo de ampliar seu leque de escolhas de gênero e autores.


Você tem acompanhado os novos livros policiais do Brasil? Qual a contribuição que autores como Luiz Alfredo Garcia-Roza, Marçal Aquino e Patrícia Melo deram ao gênero, por exemplo? O que ainda pode ser explorado neste tipo de literatura?

CARMEN: Li Invasor, do Marçal Aquino e O matador, da Patrícia Melo. São livros que deflagram a violência urbana de forma crua, sem retoques. Conseguimos acompanhar de perto a alma dos personagens e a forma absurda como a violência vai crescendo e dominando suas vidas. O mundo agressivo em que vivemos nos oferece uma matéria-prima diversificada, rica em sugestões de temas e formas. Cabe ao escritor dar uma função mais nobre a essa dor rasteira que, cada vez mais, o cotidiano nos obriga a experimentar.


O romance policial brasileiro urbano está muito associado à obra de Rubem Fonseca. É uma influência para você? Acha que o papel dele foi marcante para uma nova geração de autores?

CARMEN: Acredito que sim. Ele é meu favorito, no estilo, embora o romance policial não seja minha influência maior. Todos os bons autores que li, independentemente do gênero de atuação, influenciaram-me. Minha criação literária se iniciou com a poesia, depois vieram a dramaturgia, o romance, o conto e, mais recentemente, o roteiro de cinema. E agora, o romance policial. Meus livros, de alguma forma, revelam meu interesse e exercício de criação em todos esses campos.

 
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