| CARMEN: A influência do cinema sempre se reflete
no que escrevo. As pessoas costumam dizer que meus textos são ricos
em imagens e movimento. Muitas vezes interrompo a escrita para assistir
internamente a algumas cenas, visualizá-las, antes, como espectadora.
Elas precisam me envolver, me convencer. Depois, a escritora retoma o
comando e traduz o que assistiu. Costumo, também, ler o texto em
voz alta, para sentir se os diálogos são orgânicos,
essenciais para perceber o ritmo. Preciso ouvir o personagem para sentir
se ele existe mesmo.
O perfil psicológico de cada um dos personagens é
importantíssimo em seu livro. Desequilíbrios desta ordem
estão na base dos crimes?
CARMEN: Ao menos dos crimes mais interessantes enquanto ficção.
Gosto de personagens
conflituosos, ambíguos... personalidades complexas que, algumas
vezes, estão próximas da loucura.
Como o livro se relaciona com seus outros títulos como
ficcionista?
CARMEN: Diário de luas, meu primeiro romance publicado
pela Rocco, conta a história de uma atriz anônima, obcecada
pela fama, que acaba cometendo um crime. Não o considero um romance
policial. A tônica não é a ação nem
o suspense, mas o perfil de uma mulher que, movida por uma obsessão,
torna-se uma criminosa. Este elo com o crime não acontece com o
Sutilezas do grito, livro de contos. No entanto, a marca de todas as minhas
criações é a narrativa psicológica, a deflagração
das contradições, dos sentimentos humanos, e a maneira gradativa
como esses personagens vão sendo apresentados ao leitor. Gosto
de administrar o suspense, omitindo e revelando dados, mesmo quando o
livro não pertence ao gênero.
Como autora, quais são suas influências quando
o assunto é literatura policial?
CARMEN: Adoro Rubem Fonseca e Edgar Allan Poe. Os filmes
de Brian de Palma, Alfred
Hitchcock e todas as boas histórias de crime, mistério e
suspense que assisti também foram de grande importância na
criação de O primeiro crime. Sem falar na influência
que a vida exerce sobre mim, à medida que observo demais as pessoas,
a mim mesma, o ritmo dos fatos e o tempo necessário para que os
mistérios nos sejam revelados.
Fora o de suspense, que outros gêneros e autores nacionais
fazem parte de sua mesa-de-cabeceira?
CARMEN: Machado de Assis, Clarice Lispector, Graciliano
Ramos, Rubem Fonseca, Lima Barreto, Caio Fernando Abreu, e os poetas Augusto
dos Anjos, João Cabral de Melo Neto, Tanussi Cardoso, Adélia
Prado, Mário Quintana são alguns dos escritores de que mais
gosto.
Na sua opinião, há alguma característica
específica desta literatura por aqui? Existiria um noir verde-amarelo?
CARMEN: Acho que alguns escritores talvez estejam imprimindo
ao gênero os nossos traços, a nossa cara.
Que ingredientes precisa haver num bom livro policial para ele "prender"
a atenção do leitor?
CARMEN: Uma história instigante, cheia de surpresas,
com uma boa estrutura narrativa. Diálogos que revelem e, ao mesmo
tempo, ocultem a humanidade dos personagens e suas intenções.
Um ritmo dinâmico de ação. Sobretudo, o escritor precisa
saber decidir o que informar, o que ocultar e quando. Deve oferecer, gradativamente,
ao leitor, os dados para a montagem do quebra-cabeça da trama,
reservando para o momento final uma grande revelação.
Você acha que a literatura policial, muitas vezes associada
ao entretenimento, pode ajudar a formar novos leitores?
CARMEN: Sim. Qualquer gênero literário pode
incentivar a formação de novos leitores. Sobretudo o policial,
que utiliza ingredientes de grande poder de sedução. Uma
leitura prazerosa, que proporcione entretenimento, é um marketing
vigoroso, que pode despertar no leitor iniciante o desejo de ampliar seu
leque de escolhas de gênero e autores.
Você tem acompanhado os novos livros policiais do Brasil? Qual a
contribuição que autores como Luiz Alfredo Garcia-Roza,
Marçal Aquino e Patrícia Melo deram ao gênero, por
exemplo? O que ainda pode ser explorado neste tipo de literatura?
CARMEN: Li Invasor, do Marçal Aquino e O matador,
da Patrícia Melo. São livros que deflagram a violência
urbana de forma crua, sem retoques. Conseguimos acompanhar de perto a
alma dos personagens e a forma absurda como a violência vai crescendo
e dominando suas vidas. O mundo agressivo em que vivemos nos oferece uma
matéria-prima diversificada, rica em sugestões de temas
e formas. Cabe ao escritor dar uma função mais nobre a essa
dor rasteira que, cada vez mais, o cotidiano nos obriga a experimentar.
O romance policial brasileiro urbano está muito associado à
obra de Rubem Fonseca. É uma influência para você?
Acha que o papel dele foi marcante para uma nova geração
de autores?
CARMEN: Acredito que sim. Ele é meu favorito,
no estilo, embora o romance policial não seja minha influência
maior. Todos os bons autores que li, independentemente do gênero
de atuação, influenciaram-me. Minha criação
literária se iniciou com a poesia, depois vieram a dramaturgia,
o romance, o conto e, mais recentemente, o roteiro de cinema. E agora,
o romance policial. Meus livros, de alguma forma, revelam meu interesse
e exercício de criação em todos esses campos.
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